Professor de Turismo publica artigo em parceria com Jornal O Estado e Fórum Estadual de Ciências Humanas

Postado por: Ana Monteiro

Regenerar é preciso (25/09/2026)

Durante muito tempo, aprendemos a medir o sucesso da sociedade pela sua capacidade de crescer. Produzir mais, consumir mais, construir mais, vender mais. Quanto maior a produção, maior a riqueza; quanto maior a riqueza, maior seria o bem-estar. O crescimento econômico tornou-se um dogma da modernidade. Não importava tanto para onde estávamos indo, desde que estivéssemos crescendo. Até percebermos que crescer não era suficiente.

Meados do século passado, uma nova palavra passou a ocupar o centro das discussões: desenvolvimento. Já não bastava produzir e acumular. Era necessário demonstrar que a sociedade estava melhorando. Educação, saúde, renda e qualidade de vida passaram a compor indicadores que procuravam traduzir a ideia de evolução humana. O desenvolvimento parecia ser um crescimento com propósito. Mas logo surgiu outra inquietação: poderíamos continuar crescendo e nos desenvolvendo indefinidamente em um planeta finito?

Entrou em cena a sustentabilidade. Tornou-se necessário produzir sem destruir, consumir sem esgotar, desenvolver sem comprometer as possibilidades das futuras gerações. A sustentabilidade ocupou discursos, planos governamentais, estratégias empresariais e projetos diversos. Tornou-se conceito acadêmico, princípio político e, não raramente, também produto de mercado. Em pouco tempo, quase tudo podia ser sustentável: empresas, produtos, cidades e experiências. Mas uma pergunta permanece: ser sustentável é suficiente?

A sustentabilidade busca, essencialmente, manter condições e evitar que ultrapassemos certos limites. É uma mudança fundamental de perspectiva. Porém, em muitos casos, transformou-se em uma espécie de selo de tranquilidade: podemos consumir, viajar, construir e explorar, desde que afirmemos fazê-lo de maneira sustentável.

O problema é que muitos dos lugares que hoje pretendemos “sustentar” já foram profundamente transformados por nossas ações. É nesse ponto que surge uma nova palavra para nossa relação com o planeta: regeneração.

Regenerar significa ir além de preservar o que ainda existe. Significa reconhecer que algo foi perdido ou degradado e assumir a responsabilidade de reconstruí-lo. Não basta manter o rio que ainda corre; é preciso recuperar aquele que foi contaminado. Não basta proteger a floresta que restou; é necessário reflorestar aquilo que destruímos. Não basta explorar a paisagem; é preciso perguntar o que podemos devolver ao território.

O planeta não é cenário. É condição de existência. E isso muda a pergunta. Durante séculos perguntamos: “O que podemos retirar deste lugar?” Depois: “Como podemos explorá-lo sem destruí-lo?” A regeneração nos obriga a formular uma terceira pergunta: “O que podemos devolver?”

Essa mudança é profundamente filosófica. Ela desloca o ser humano da posição de consumidor para a de integrante de um sistema. O visitante deixa de apenas conhecer um destino e passa a estabelecer uma relação com ele. O empresário deixa de pensar no impacto econômico de sua atividade e começa a considerar aquilo que sua presença pode reconstruir. O espaço deixa de ser produto e passa a ser território vivo, com memória, identidade, natureza e comunidades.

Regenerar é, portanto, mais do que uma nova tendência. É uma convocação ética. O sucesso de uma sociedade talvez não deva ser medido apenas pelo quanto ela cresce, produz ou preserva, mas também pelo quanto é capaz de reparar. Chegamos a um momento em que parar de destruir já não basta. Talvez a grande pergunta de nosso tempo seja esta: se durante tanto tempo perguntamos o que o planeta poderia fazer por nós, não teria chegado a hora de perguntarmos o que nós podemos fazer por ele?

Regenerar é preciso. Não apenas para salvar o planeta, mas para salvar a ideia de futuro.

Noslin de Paula Almeida é Professor do Curso de Turismo da UFMS. E-mail: noslin.almeida@ufms.br

Este artigo é resultado da parceria entre o Jornal O Estado de Mato Grosso do Sul e o FEFICH – Fórum Estadual de Filosofia e Ciências Humanas de MS.